A Ginete Luiza Almeida, tetracampeã brasileira em adestramento e ex-aluna de Direito da FAAP, caminha para as qualificações e é a aposta do hipismo brasileiro nos jogos olímpicos

Mais de 500 convidados formavam plateia para a apresentação da garota de 4 anos, montada em um cavalo, na cerimônia que daria início à criação de puros-sangues lusitanos de seus pais. Assustado com os aplausos, o animal disparou pela fazenda de Itu, interior de São Paulo. A menina segurou firme durante toda a galopada, mas, curiosamente, quando o cavalo parou, ela caiu no chão. “Desculpa a vergonha que eu estou fazendo você passar”, disse ela ao pai, enquanto ele a socorria. “Quem daquelas pessoas poderia imaginar que ela seria uma menina olímpica nesse esporte?”, pondera Manuel Almeida, 52 anos, pai da hoje ginete Luiza Almeida.

Desde então, a vida da paulistana parece correr a galopes, como os do cavalo de sua infância. Com 24 anos, ela soma em seu currículo feitos que muitos atletas experientes ainda almejam: dois Pan-Americanos, duas Olimpíadas e dois Jogos Equestres Mundiais. Mais: carrega uma dezena de prêmios que a posicionam como referência nacional no adestramento.

Sua estreia no esporte se deu aos 14 anos, quando participou de um projeto que visava formar uma equipe para os Jogos Pan-Americanos de 2007. Mesmo com toda a dedicação, sua convocação foi recusada por não ser considerada a melhor opção – achavam que ela era ainda muito nova para entrar em competição.

O destino, porém, parecia contrariar o bom senso. Pouco antes da competição, o cavalo de um dos titulares de sua equipe se machucou e o atleta teve que abandonar a competição. Outro titular também deixou a vaga por conta de uma intoxicação alimentar. “Não fui eu que envenenei”, brinca a ginete.

Em 2004, brincando na fazenda da família, em Itu (SP): a garota começou a montar com cerca de 3 anos de idade

Com 15 anos recém-completos, ela passou de reserva da reserva a um dos três representantes brasileiros oficiais na competição do Pan. Acompanhada do puro-sangue Samba e com concentração e domínio raros para uma estreante, Luiza superou as notas necessárias e garantiu a medalha de bronze que levaria pela primeira vez o time brasileiro de adestramento a uma disputa olímpica. “Nesse dia, a gente percebeu que ela era de fato uma cavaleira excepcional e uma futura campeã”, conta a mãe Thereza Almeida, 52. Ela estava certa. “A Luiza é um fenômeno, ela chegou muito cedo nesse nível de excelcência. O adestramento é extremamente complicado, é um balé que o homem e o cavalo realizam e que precisa ser perfeito”, diz Luis Fernando Monzon, 55, comentarista da modalidade de salto na SporTV e juiz da Federação Equestre Internacional, que também acompanhou o début de Luiza. “Ela é uma superpilota de F1 que até agora não teve um carro ganhador    que seria o cavalo –, mas que, mesmo assim, tem obtido resultados espetaculares”, completa.

 

Com o objetivo de treinar intensivamente, aos 15 anos, Luiza decidiu passar sozinha uma temporada de 1 ano na Alemanha – país referência no esporte. Estudou em uma escola internacional e morou em um trailer alugado e instalado no quintal da casa de seu treinador, o belga Johan Zagers, seu primeiro e atual técnico. “Ela já era um grande talento, muito motivada para uma jovem garota”, lembra Zagers. Foi neste período que Luiza conseguiu sua qualificatória para as Olimpíadas de Pequim, em 2008, sagrando-se a cavaleira mais jovem da história a competir nos jogos, com apenas 16 anos. Na edição de Londres, em 2012, foi a única representante latino-americana na disputa por medalha individual. Confiante, a atleta caminha para sua terceira Olimpíada neste ano – até 19 de junho ela passaria por provas classificatórias para tentar uma vaga. Até o fechamento desta edição, apenas ela e o cavaleiro João ​Victor ​Oliva, filho da ex-jogadora de basquete Hortên​c​ia e do empresário José Victor Oliva, ​já haviam atingido os índices internacionais necessários para a qualificação no adestramento.

PLANO B

Mesmo com uma carreira de sucesso no hipismo, a atleta não abriu mão dos estudos. Apesar de ter até cogitado abandonar o colégio por conta do esporte, Luiza optou por fazer Direito na FAAP – mas sem deixar de lado as competições. “Eu vejo a minha graduação
como um seguro de vida, ninguém sabe o dia de amanhã”, diz ela. “Mas eu também me apaixonei por Direito quando assisti às minhas primeiras aulas na FAAP. A faculdade tem um corpo docente impressionante, os melhores profissionais de todas as áreas estão lá, sem contar, é claro, a estrutura majestosa e tecnológica. Além disso, me deu todo o apoio e suporte que eu precisava para me dedicar também ao adestramento.”

Para conciliar as duas paixões, durante o curso na FAAP a ginete pode ter abono de faltas e avaliações especiais, conforme a Lei Pelé estabelece. “Os professores entendiam a minha ausência e eram flexíveis com as datas de entregas de trabalhos, a representante da sala me enviava as matérias da semana por e-mail. Para conseguir levar as duas coisas, só com muita organização e planejamento”, diz Luiza. A garota conta que separava 2 horas por dia após os treinos para colocar as tarefas em dia e reservava as segundas-feiras de folga, “o day-off dos cavalos”, para realizar os grandes trabalhos. “É uma vida muito corrida”, diz. “Luiza é uma pessoa de caráter sólido, extremamente disciplinada e, desde seu ingresso na FAAP, ela serviu como exemplo de cidadania, força e dedicação”, enaltece a professora Náila Nucci, coordenadora de atividades pedagógicas da FAAP, que elaborou o regime especial de estudos para a aluna.

Apesar de incentivarem o esporte, os pais também defenderam sempre a importância do estudo na vida de Luiza. “No Brasil o adestramento ainda não é uma profissão muito fácil. Estudar dá a ela a possibilidade de decidir por outro caminho no futuro além do esporte, se ela quiser”, diz o pai. Ele afirma ainda que não espera que os filhos assumam os negócios da família, a empresa Tatuzinho, fabricante da cachaça Velho Barreiro. Além de Luiza, os filhos Pedro e Manuel, 22, e Thaisa, 26, também trilham o mesmo caminho que a ginete – eles competem em adestramento e disputam vagas no time olímpico brasileiro. “No futuro, naturalmente eles farão parte do conselho da empresa, mas no dia a dia realmente nunca houve pressão para incluí-los”, resume Manuel. Para ele, o esporte é uma “definição de vida” da família: “Todos gostam da mesma coisa e isso nos une muito”.

Com o apoio incondicional de sua família e posto de queridinha do hipismo em 2016, Luiza não vê a hora de competir novamente em casa. “Nós, atletas, estamos sempre dando nosso melhor, nos preparando a vida inteira para aqueles 5 minutos dentro da quadra, por um jogo, um momento”, diz. “Esse ano será inesquecível.”

NA COLA DELA

A ROTINA DE TREINOS E VIAGENS DE LUIZA

DE OURO

AS DICAS DE LUIZA PARA O DIA A DIA

PARA APLACAR A ANSIEDADE_ “Só muito treino para dar confiança e acalmar os ânimos

PARA FINALIZAR O DIA_ “Um bom banho quente para relaxar e Skype com as amigas e o namorado”

PARA ESTUDAR_ “Acordo bem cedo, tomo um café forte”

PARA CURTIR_ “Viajar e andar a cavalo são as melhores coisas da vida”

PARA ANIMAR_ “Rodeio e balada com música ao vivo”

PARA SE CONCENTRAR_ “Me isolo num lugar silencioso 1 hora antes das competições e não falo com ninguém”