A vida em ritmo de montanha-russa de Sidney Rabinovitch, o fundador da FOM, dos tempos de ativista estudantil até a descoberta das almofadinhas de textura curiosa que virariam uma marca do design brasileiro pelo mundo

Foi numa manhã qualquer de 2003 que a vida de Sidney Rabinovitch mudou totalmente de rumo. Ele começava mais um dia de trabalho no terceiro andar de sua casa, no Jardim Paulistano, em São Paulo, onde andava mergulhado em pesquisas. Aos 46 anos, após ter sido demitido da diretoria do grupo Transamérica de hotéis, ele vislumbrava propostas de emprego pouco interessantes. Decidiu, então, empreender – só não sabia, ainda, de que forma.

Naquele dia, a arquiteta Betina Lafer entrou no escritório do marido com os brindes e catálogos que trouxera de uma tradicional feira de decoração de Paris, a Maison&Objet. O olhar de Sidney parou em um pequeno cilindro bege-claro, que imediatamente começou a apalpar. A sensação era esquisita: lembrava a textura da areia. Por fora, um tecido elástico tornava a experiência táctil ainda mais surpreendente. Sidney pegou uma tesoura e – sob protestos da mulher – furou o cilindro. Um punhado de minúsculas bolinhas brancas caiu sobre a mesa. Ali começaria uma quixotesca jornada pela fórmula daquelas bolinhas, chamadas micropérolas de EPS (a sigla para poliestireno expandido). “O material era muito bom, saquei na hora que dava para fazer qualquer coisa com ele”, conta Sidney, em seu escritório na fábrica da FOM, no bairro paulistano do Bom Retiro.

Sidney no estoque da fábrica, com mais de 300 modelos diferentes, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo

Mas, ao meu redor, todo mundo achou que eu estava completamente louco”, relembra. Amigos, família, ex-colegas de trabalho, ninguém enxergou naquelas esferas miúdas uma ideia promissora de negócio. Exceto Sidney. “Eu costumava encontrar um pessoal do banco para tomar uísque no Pandoro [tradicional bar de São Paulo]. Quando expliquei o que andava fazendo, acharam que eu estava costurando almofadinhas para vender. Nunca mais fui chamado para os happy hours. Não entenderam que eu vislumbrava um novo mercado”, conta. “A jornada do Sidney foi muito sofrida e solitária”, completa Betina, que cuida da área criativa da FOM. “Eu mesma, por muitos anos, não acreditei no negócio.”

NA ESTRADA

Não era a primeira vez que o empresário escolhia um caminho à revelia das opiniões alheias. Nascido em uma família tradicional e filho de imigrantes russos e poloneses – seu pai tinha fundado a bem-sucedida construtora de luxo Fischberg-Rabinovitch –, passou a infância entre as mansões do Morumbi e do Jardim Paulistano, estudou no Dante Alighieri.

Em meados dos anos 70, ingressou no 
curso de Administração na FAAP. Era um momento de efervescência política e Sidney se engajou em movimentos estudantis que contestavam a ausência de democracia daquele período. “Eu era ativo politicamente, ia a muitas passeatas e protestos”, conta. “Houve um professor em especial, um sociólogo chamado Lauro Gurgel Ramalho Filho [então diretor do curso de Administração da FAAP], que abriu minha cabeça, me estimulou muito intelectualmente”, lembra. Entre 1977 e 1978, ainda na faculdade, Sidney – a contragosto do pai – decidiu trancar o curso para fazer um mochilão de um ano e conhecer a realidade política e cultural de outros países. Trabalhou em um kibutz em Israel (“quis viver uma experiência meio socialista”), virou garçom na Grécia (“eu dormia na praia, meus únicos pertences eram uma câmera Nikon, uma calça jeans e um boné”), manobrou carros em hotéis da Inglaterra e colheu morangos no sul da França.

Em 2007, a sala de costura com cerca de sete funcionários. Hoje há por volta de 25 costureiros

Quando voltou, o pai – nas palavras de Sidney – fez o filho “dar uma aterrissada”. “Ele me convenceu de que era hora de ‘entrar na vida’ – e hoje sou grato por isso.” Sidney concluiu o curso na FAAP, do qual levou ensinamentos valiosos para a futura empreitada na FOM. “Tenho ótimas lembranças das aulas de marketing. Na época, o mundo publicitário estava em ebulição e os professores atuavam nesse mercado, então traziam cases reais para a classe e ensinavam de um jeito muito entusiasmado”, detalha.

Em paralelo, conseguiu uma vaga de estagiário no banco Safra. Era o início de uma trajetória profissional que, como a viagem de mochilão, teve um pouco de tudo. No início dos anos 80, abriu uma revendedora de motos importadas. Tratava-se de paixão antiga. Sidney sempre teve um fascínio por motos e motores. Sobre duas rodas, conheceu paraísos como o Pantanal, o litoral do Nordeste e a Serra do Rio do Rastro. Também sofreu um grave acidente durante um enduro, em 1985, nas montanhas de Minas Gerais, quando teve uma fratura exposta na perna direita que o submeteu a duas cirurgias.

Mas comercializar motos, ele diz, era “cerebralmente pequeno e vazio”. O irrequieto paulistano, então, embarcou em uma jornada de 15 anos pelo mercado de turismo, durante a qual trabalhou em agências, operadoras, companhias aéreas – e, por fim, no grupo Transamérica de hotéis, aquele do qual seria demitido em 2001.

Quando farejou que seu futuro estava nas bolinhas que vazaram daquele cilindro bege, Sidney precisou de dois ingredientes fundamentais para transformar sua ideia em negócio. O primeiro foi uma espécie de isolamento mental, o qual ele gosta de chamar de “firewall”. Essa barreira – construída com a ajuda de ioga e meditação – servia para bloquear as frequentes opiniões que o apontavam como “maluco”. Sidney confiava naquele material esquisito e estava disposto a contrariar todo mundo para seguir sua intuição.

Sidney ao lado da esposa Betina, no segundo quiosque FOM, aberto em 2007, no Shopping Morumbi

O segundo requisito era, por assim dizer, “encontrar o milho e aprender a fazer a pipoca”. A analogia traduz o processo que transforma aquele derivado do petróleo em pura fofura ensacada. A odisseia começaria pela busca do milho, ou seja, as micropérolas de EPS, matéria-prima fundamental da FOM (Leia mais no box da pág. 72). Enquanto pérolas maiores de EPS são comuns, a versão “micro” é rara. A primeira ideia foi trazê-las do Japão, o que se revelou inviável pelo baixo valor do produto. Sidney encontrou, depois, uma fábrica na Argentina que usava as micropérolas em abafadores de tanques do exército, mas a logística seria impraticável. “Eu não achava nem o milho, nem a máquina de fazer pipoca [expandir as micropérolas com vapor]”, ele lembra.

A solução apareceu em Santa Catarina, em uma empresa onde as micropérolas eram um subproduto da linha de produção. Sidney passou a buscá-las de Kombi e trazê-las para uma pequena indústria de Campo Limpo Paulista, a 50 quilômetros de São Paulo. Ali, na verdade, eram fabricados copinhos plásticos para redes de fast-food, mas se o processo fosse interrompido na metade – voilà! – o que se obtinha eram as ansiadas micropérolas expandidas. “Era uma operação meio exército de Brancaleone. Quem dirigia a Kombi nas viagens era eu mesmo, ou um segurança da rua que passou a trabalhar comigo. Hoje parece engraçado, mas foram tempos difíceis”, diz Sidney. Sua filha mais nova, que tinha 10 anos na época, se lembra vivamente do terremoto em que a vida doméstica se transformou. “Eu tinha sido criada dentro de um padrão bacana e, de repente, a gente não podia comprar mais absolutamente nada nem viajar para lugar nenhum”, conta Julia, hoje aos 23 anos. “A casa virou uma fábrica”, completa seu irmão Gabriel, 26. “Na sala de jantar tinha um monte de gente cortando tecido, no quartinho colocaram umas máquinas de costura, na garagem tinha um compressor, minhas roupas viviam cheias daquelas bolinhas”, recorda.

Apesar das dificuldades, Sidney tinha conseguido fazer sua pipoca – e agora faltava só um nome para a marca. O estalo: enquanto se barbeava, leu no rótulo do produto a palavra foam (espuma, em inglês). “Eu encobri com o dedo a letra ‘a’ e virou ‘fom’. Percebi que era um nome forte. E era, mesmo: acabou se tornando o sinônimo de uma categoria de produtos, como Gilette. Nosso principal ativo, atualmente, é a marca.”

Ele com um dos novos modelos da FOM

OCEANO AZUL

O empresário tinha outro bom motivo para insistir na FOM: o fato de que ninguém explorava esse mercado no país. “Desde o início enxerguei, como dizem os economistas, um ‘oceano azul’. Ou seja, um amplo mercado potencial sem ninguém atuando nele. Percebi que poderia fazer tudo: almofadas, pantufas, colchões, itens médicos…”, diz. Hoje, a FOM produz mensalmente até 100 mil peças para decoração, diversão ou conforto, todas preenchidas pelas minúsculas bolinhas – e famosas pelo impulso de apertá-las. A empresa tem 45 pontos de venda (30 próprios e 15 franquias) e exporta para países como França, Portugal e Israel. Na fábrica do Bom Retiro, cerca de 300 pessoas preparam até 300 modelos diferentes de estofados, entre eles os personagens da Disney e da Turma da Mônica.

Após aquele início improvisado, a FOM passou a crescer a taxas anuais de 30% a 40%. Logo a marca chamou a atenção de investidores estrangeiros, que propuseram a Sidney uma sociedade – algo que ainda não se concretizou. A bonança durou quase uma década, até a recente crise econômica do país. Em 2013 e 2014, a expansão anual foi de apenas 3%. Em 2016, a FOM conheceu o primeiro prejuízo, uma retração de 3%. “Quando você cresce, as despesas crescem junto e, naquele ano, elas ultrapassaram as receitas”, diz o empresário. No ano seguinte, porém, o gráfico do balanço voltou a apontar para cima: alta de 12% nas vendas.

Desde o início enxerguei, como dizem os economistas, um ‘oceano azul’. Ou seja, um amplo mercado potencial sem ninguém atuando nele. Percebi que poderia fazer tudo: almofadas, pantufas, colchões, itens médicos… –  Sidney Rabinovitch, ex-aluno de Administração da FAAP e fundador da FOM

E a imaginação de Sidney, aos 61 anos, voltou a mirar para o alto, também. A FOM está prestes a abrir lojas-conceito em bairros descolados no Rio de Janeiro e em São Paulo – provavelmente Leblon e Pinheiros. Vai inaugurar também um marketplace virtual e entrar em mercados como Peru, Uruguai e Suíça. A empresa planeja ainda lançar a FOM CARE, voltada para conforto médico, que seria vendida em farmácias e hospitais – e já vislumbra novos usos para as “almofadinhas”, em áreas como spas e salas de ioga.

“Se eu sou meio realista-pessimista, o Sidney é um otimista-esperançoso. Ele está sempre correndo à frente, cheio de ideias”, diz Betina – a arquiteta, vale o registro, pertence à família que fabrica os conhecidos móveis da marca Lafer. Sidney e Betina se conheceram em um concerto de música clássica e estão casados há 27 anos. “Acho ótimo esse jeito dele, porque minha praia é a criatividade e a estética, então somos complementares na empresa”, ela conclui. “Ele é um sonhador; foi isso que o levou a construir um negócio como a FOM”, diz Gabriel, o filho mais velho. “E ele sempre fala para a gente uma coisa que tirou das corridas de moto: quando o caminho está incerto, se você olhar para o buraco, acaba indo para o buraco. Tem que olhar para a saída.”

O casal com os filhos Gabriel e Julia

Para entender a textura
A ciência por trás da fofura

 

Do que eles são feitos? Todos os produtos da FOM são feitos de micropérolas de poliestireno expandido. Também são envoltos por um tecido que leva poliamidas, o que dá a sensação de elasticidade.

Por que isso virou a marca da FOM? Ninguém fazia isso no Brasil, por um motivo simples: tanto as micropérolas quanto o maquinário para expandi-las são difíceis de encontrar. Sidney deu uma de professor Pardal e montou uma fábrica própria.

Como funciona o processo? A empresa importa o EPS de diferentes países. Na fábrica paulistana, elas são expandidas através do contato com o vapor. “É como comprar milho e fazer pipoca”, compara Sidney.

Como são as bolinhas? São esferas minúsculas de isopor. A expansão faz com que 98% do volume do EPS seja composto de ar, o que torna o material muito leve. Quando se segura um punhado, a sensação é de que as mãos estão vazias: quase não há peso.